TRÊS CRENÇAS são muito marcantes no novo futebol brasileiro:
1ª crença: O futebol é apenas business, devendo ser estritamente objetivo e previsível.
1ª crença: O futebol é apenas business, devendo ser estritamente objetivo e previsível.
Tomado assim, o futebol torna-se uma ilha de negócios, sem qualquer ligação profunda com as dinâmicas socio-culturais. Fazer futebol seria algo tão técnico como construir um prédio. E torcer para um clube não é algo muito diferente de torcer, por exemplo, para a XP.
2ª crença: Por ser plenamente objetivo, vencer no futebol é uma soma simples entre o CONSIDERADO melhor jogador, melhor técnico e melhor método.
Qual é o problema da seleção? Dizem os especialistas: é só colocar o melhor técnico do mundo, ou ter de novo os melhores jogadores. É como se o futebol fosse um algoritmo, uma fórmula, etc. Não existe lastro cultural, processos de subjetivação, construção de afetos, etc.
Rapidamente essa discussão descamba para o status social. Dizem os especialistas de novo: temos tão bons jogadores como no passado porque jogam no Real Madrid e vencem tudo. Ter status social é muito diferente de ser tão bom quanto o Ronaldo.
Rodrygo é um excelente jogador, mas ser campeão pelo Real Madrid e respeitado pelo mundo não o faz um jogador melhor. Ele não melhora sua técnica, sua criatividade, sua capacidade de drible porque ganhou status social.
É preciso explicar para os especialistas que jogar futebol é algo muito diferente de ter status social. Riquelme não tem status social na Europa, mas foi um gênio. Zico não tem status social na Europa e foi muitíssimo melhor que qualquer jogador brasileiro no Real hoje.
Ser vencedor, respeitado ou admirado por um público local ou global não torna melhor nenhum jogador de futebol. Ter status social decorre não só do talento, mas de outras variáveis como contexto e fortuna.
O novo futebol brasileiro olha para a seleção como um overall de videogame, uma colcha de retalhos de jogadores com status social na Europa. Andreas tá jogando bem na Premier League? Seleção! Danilo joga em grandes times europeus? Seleção!
Todas as convocações da seleção brasileira nos últimos 10 anos obedecem essa lógica de importância social. Todo mundo sabe que se Matheus Pereira estivesse jogando o mesmo do Cruzeiro num time médio da Inglaterra, estaria na seleção por status social.
Aqui, perdemos duas coisas:
a) não avaliamos o jogador, suas características, o seu talento, o encaixe entre os melhores jogadores, mas o status;
a) não avaliamos o jogador, suas características, o seu talento, o encaixe entre os melhores jogadores, mas o status;
b) não consideramos que encontrar uma sinergia, um encontro de afetos, saber representar em campo uma cultura é muito mais importante para vencer e criar admiração do que simplesmente juntar jogadores com 'overall' alto no videogame (status social).
3ª crença: A obediência e a disciplina são mais importantes do que a intuição e a criatividade.
O futebol brasileiro foi militarizado. Há uma obsessão inaudita por obedecer regras, processos, métodos. Criamos uma geração de jogadores com medo da liberdade, que preferem seguir os mecanismos, jogar apenas de memória pelo treino do que arriscar, criar, sair do script.
Rivaldo conta que, numa vitória de 3 a 0 do BCN contra o Real, desobedeceu Van Gaal, saiu da ponta, foi pro meio e fez o 3º gol. No vestiário, o holandês brigou com ele. Henry conta algo parecido no seu 1º ano com Guardiola, quando desobedeceu, fez gol e saiu no intervalo.
Nos dois casos, para Van Gaal e Guardiola, a disciplina, a obediência, ter compromisso com o ensaiado seria respeito pelo coletivo. Já, para Rivaldo, era essencial seguir a sua intuição, desobedecer, sair do ensaiado, e criar. O futebol brasileiro era Rivaldo. Hoje, é Van Gaal.
O que essas 3 crenças nos mostram? Que ficar discutindo técnicos, jogadores, presidentes é ficar preso nas borbulhas do mar, na superfície de nossos problemas.
O problema do Dorival, do Tite, de quase todo ecossistema do futebol brasileiro não está na falta de conhecimento, no "atraso", na falta de métodos. O problema está na falta de SENSIBILIDADE para outras coisas como cultura, sociedade, afetos, etc.
O futebol é um encontro. E um encontro entre jogadores não é só um encontro entre seres humanos que jogam futebol, mas um encontro invisível entre a sociedade, o imaginário, a cultura, a experiência vivida que habita cada um deles.
O novo ecossistema do futebol brasileiro despreza a intuição, a inventividade, o risco, e as incertezas desses temas sobre cultura, imaginário, e experiência. Sentem-se fora do lar nessa área, enquanto, por inverso, Luxa afirma que não se sente bem no atual ambiente do futebol.
O Brasil do século XXI passa por transformações socio-culturais profundas diante do Brasil do século XX. Nessa transição, há um arrastado colapso na sociedade, donde várias respostas podem surgir. Em várias frentes, do poder às novelas, o futebol é também parte desse quadro maior
Tratar os problemas do futebol brasileiro em termos de "atraso", falta de conhecimento, mera mudança de nomes, é desconhecer profundamente que o nosso desencanto com a seleção é, antes de tudo, um problema sociológico.
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