József Bozsik
József Bozsik

@Jozsef_Bozsik

29 تغريدة 4 قراءة Jun 25, 2024
Em 2019, o Brasil ganhou a Copa América. Defendi ao fim do torneio que a Argentina ganhou algo mais importante, um futuro. Anos depois, venceram a Copa a partir dessa semente. O caminho da Argentina nos ajuda a compreender que a crise de identidade da seleção é sociocultural.🧶
A Argentina começa a Copa América 2019 num 442 posicional e simétrico, buscando o jogo exterior com pontas claros. Perde para Colômbia, empata para o Paraguai. Poderiam ser eliminados na 1ª fase. Então, Scaloni muda tudo.
Contra o Catar, a Argentina começa num 4312, sem amplitude, sem posições fixas, rodeando Messi de "ex-enganches". De Paul se tornou volante pela primeira vez. Paredes e Lo Celso eram os seus complementos naquele dia.
A Argentina tornou-se outro time. Fez bons jogos contra Catar, Venezuela, Brasil, Chile. A partir dali, essa base foi aperfeiçoada. Ganhou um atacante mais móvel e que poderia jogar pelas duas pontas como Di Maria, e adicionou os jovens Enzo e Julian perto da Copa.
Scaloni deixa claro que não foi só uma mudança tática, mas de filosofia. Ele percebeu que o futebol planejado não encaixava com as características dos seus jogadores. Deixá-los confortáveis para estabelecer relações socioafetivas era mais importante.
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Mais do que isso. Scaloni percebeu que a seleção cresceu não só no conforto para os jogadores, mas quando reivindicaram uma identidade, um propósito em comum, um sentido que toda sociedade argentina poderia ser incluída e não só os jogadores: La Nuestra.
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Scaloni e sua comissão técnica reivindicam o símbolo de La Nuestra, representação do futebol potrero, de pícaros, do clássico toco y me voy, jogo de assimetrias, compensações, baseado na virtude técnica, no "bom pé", na rebeldia e na capacidade imaginativa.
A Argentina vence a Copa América 2021 no Maracanã, dá um espetáculo contra a Itália em Wembley. De maneira bem pensada, Scaloni convoca a seleção para Copa num quadro ao fundo com o time escalado no clássico 4312 argentino.
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O símbolo importa. Em momentos de maior tensão, estresse, de difícil decisão, essa convicção de estar participando de um sentido em comum com seu povo pesa favoravelmente, cria convicções inabaláveis.
A Argentina começa a Copa fugindo do 4312 com a lesão de Lo Celso. Perde. Messi assume a liderança e reivindica: precisamos retornar às origens e fazer o que sempre fizemos nesse ciclo. MacAllister entra, Argentina retorna ao 4312, ao jogo dos enganches.
Nas quartas, Van Gaal, um posicionalista ortodoxo, adversário mortal da cultura futebolística sul-americana, representada por Rivaldo, Di Maria, Riquelme. Messi comemora o gol de frente para o banco holandês, homenagenado Riquelme. Símbolo de libertação. A foto do século.
Nas semis, a Argentina mete 3 na Croácia com 5 enganches ou ex-enganches, sem pontas, jogando com a bola no pé, se movendo, ao ritmo do toco y me voy. Futebol argentino de toda vida. Um senso em comum entre jogadores, povo, história.
Na final, demolem a França por 80 minutos até o pênalti que resgata o time europeu na partida. Lutam sem perder a convicção que estavam destinados aquele título. O símbolo importa porque mexe com o imaginário.
O que se passou foi algo muito mais profundo que um título, uma mudança tática, uma escolha acertada. Eles conseguiram criar uma ponte através do futebol que perpassava pelas "instituições imaginárias" da Argentina. O futebol como resposta sociocultural.
Voltamos ao Brasil. Vencer ou perder a Copa América é irrelevante. A seleção brasileira não tem identidade, não tem uma cara, não tem um projeto em comum, não tem senso comunitário, não tem nenhum sentido ou propósito com o país Brasil e suas histórias.
Lillo foi perfeito quando escolheu a seleção brasileira como símbolo de um futebol unidimensional, sem multiplicidade cultural. Nos seus dizeres, se Brasil e Camarões trocassem de camisa, ninguém perceberia. A seleção escolheu ser igual aos demais e não tentar algo especial.
Não é um treino tático, um treino de bola parada, um debate estéril se determinado jogador tem que jogar na amplitude ou na entrelinhas, se Danilo tem que ser lateral de base na direita ou na esquerda, que vão resolver essa crise de identidade, propósito, sentido.
A resposta da CBF é uma cartilha estúpida sobre cabelos rosas e brincadeiras, e uma declaração infantil do nosso capitão, Danilo, sobre tirar o sorriso do rosto e não ligar para o "jogo bonito". A solução é transformar o Brasil cada vez mais em Brazil.
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Existe uma rica produção acadêmica na história e nas ciências sociais sobre a relação entre o futebol brasileiro que foi construído a partir da década de 40 e a sociedade e cultura brasileira. Eu já escrevi vários textos compilando essas fontes e relacionando com a tática.
Na história de longa duração, a crise da seleção brasileira é também do futebol brasileiro. A crise se encontra em todo o futebol brasileiro desde a sua base.
O futebol brasileiro encantou o mundo com o "jogo bonito" no século XX porque construiu a sua própria identidade, comunhão entre jogo e "instituições imaginárias". O Brasil criou a sua própria tecnologia, que envolvia estilo, tipo de técnica, tática, cultura futebolística, etc.
Nós não renovamos essa tecnologia e resolvemos abandoná-la. Nós não jogamos fora a nós mesmos apenas na seleção brasileira, mas nos clubes, nos jornais, na imprensa, na torcida cada vez mais rica e privilegiada, e principalmente na base.
Recentemente, Messi criticou a incorporação acrítica do estilo de Guardiola no futebol de base. Afirma que as crianças precisam jogar com mais liberdade e mais toques na bola.
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No Brasil, quase todos os times do futebol de base, até times do sub-9 ou sub-11, já incorporaram o estilo tático posicional e do "dois-toquismo" como chamou Lillo. Poucas exceções, como a base do Palmeiras, valorizam os métodos e sensibilidades do futebol de rua.
Meninos baixos, rápidos e habilidosos vão para ponta onde o drible é mais seguro, fácil, menos propenso ao erro, mas que traz menos possibilidades do que o drible pelo centro.
Os altos e ágeis, com boa técnica, e bom chute de fora, jogam de meia-atacante no entrelinhas, acostumados a ser apenas definidores das jogadas dos pontas, e não meias criativos, com passes surpreendentes. Os volantes de toco y me voy quase não existem mais.
Os laterais não treinam mais a passada em direção à linha de fundo, e se especializaram no passe e na construção na base da jogada. Tocam e ficam, não jogam com passadas largas.
A crise do futebol brasileiro é mais ampla do que a seleção brasileira, seus jogadores, seus técnicos. É uma crise de mentalidade. É uma crise de concepção geral que vem desde a formação dos jogadores ao pensamento dominante no profissional, passando por toda elite que nele atua.
Contudo, como ocorreu com a Argentina, a seleção pode ser lugar privilegiado para operar uma renovação, trazer o retorno de símbolos, e criar nova relação entre o futebol, a cultura e a sociedade. Por enquanto, estamos muito longe e parece que ninguém se deu conta disso.

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