József Bozsik
József Bozsik

@Jozsef_Bozsik

27 تغريدة 5 قراءة Jul 10, 2023
O NOME DA ROSA
O rumo escolhido pela CBF para a próxima Copa é heterodoxo, mas rico em possibilidades. A sua potência está precisamente numa combinação de “linhas tortas”, que podem gerar um contexto único para reinterpretar o nosso jogo.
Segue o fio 🧶
1- O ESTILO DE DINIZ
Recentemente, uma fala interessante de Renato Gaúcho passou despercebida. Ele fez a seguinte comparação do seu estilo com Diniz: “Temos ideias parecidas. Só não arrisco como ele arrisca. É suicídio. Ele arrisca com goleiro e zagueiro na área”.
Alguns poucos treinadores brasileiros (como Diniz, Renato e Dorival) são herdeiros da cultura brasileira. Eles adaptam a organização ofensiva do “jogo bonito” às demandas do futebol contemporâneo. Contudo, há uma faceta em que Diniz viajou mais profundo: a saída de bola.
Com os jogadores preenchendo mais rápido cada palmo de campo e com a melhora da defesa em cobrir espaços, não se pode mais jogar de área a área como numa posse do basquete, onde se organiza e se cria jogadas perto da cesta defendida pelo adversário.
É preciso saber jogar e se organizar ofensivamente desde o primeiro passe do goleiro. Construir por todo o campo. Diniz inovou ao adaptar as características do futebol brasileiro não só a organização ofensiva no terço final do campo, mas desde a saída de bola do goleiro.
Ele arquitetou uma maneira de sair jogando desde o goleiro com mais aproximações e possibilidades. Os jogadores não se aproximam da bola apenas no terço final do campo, mas fazem isso desde a saída de bola.
Ao contrário da maioria dos times, Diniz não pede apenas o toque rápido e de primeira, mas usa conduções e dribles para superar o pressing rival. A “saidinha” de Diniz produz infinitamente mais gols do que sofre em erros esporádicos.
2- DINIZ NA SELEÇÃO
A pior bússola para a escolha de um técnico de seleção é o número de títulos. Vejamos os últimos 3 campeões:
Low: 1 campeonato austríaco, 2 copas nacionais.
Deschamps: 1 campeonato francês, 1 série B italiana.
Scaloni: 0 título, nenhuma experiência.
Técnicos que venceram Champions ou mundial como Luis Enrique, Flick, Van Gaal e Tite não chegaram tão longe. O que há de comum entre os 3 últimos campeões da Copa? Eles souberam reinserir a cultura futebolística do país nas demandas do futebol contemporâneo.
Low manteve a verticalidade e a fisicalidade do jogo alemão, mas os adaptou com alguns elementos do jogo de posição. Deschamps manteve a tradição do jogo funcional mediterrâneo, e criou um 4231 torto que se transformava em 4312 com Matuidi de falso-ponta pela esquerda.
Scaloni adaptou o estilo argentino às demandas contemporâneas, buscando resgatar a ideia de losango no meio-campo, a posse mais pausada e técnica, a movimentação inventiva, e o toco y me voy.
Antes de 2014, havia no futebol brasileiro o predomínio do imobilismo (rejeição às demandas do futebol contemporâneo). Depois de 2014, criou-se a hegemonia da mera imitação: deveríamos jogar fora toda nossa cultura futebolística para copiar nova tecnologia.
Diniz superou esse embate infantil entre o imobilismo e a mera imitação, traçando o mesmo caminho dos últimos campeões: a inovação a partir da adaptação do futebol brasileiro às demandas do futebol contemporâneo.
3- AFINIDADES ELETIVAS ENTRE DINIZ E ANCELOTTI
É verdade que os times de Diniz costumam defender em bloco mais alto por mais tempo do que os de Ancelotti. Contudo, algumas diferenças não podem apagar as inúmeras afinidades entre os dois:
A) Filosofia de vida espelhada no jogo: Diniz sempre reivindica que o seu estilo nasce do jogador, que as relações socioafetivas no campo são mais importantes do que a mera repetição de um padrão posicional. Ancelotti pensa semelhante.
Para o italiano, o futebol é simples: Colocar cada jogador na situação em que se sente mais confortável, criar uma grande empatia entre eles, e deixar ocorrer. Os times de Ancelotti também não são fanáticos por rígidos padrões posicionais.
B) Diniz busca escalar sempre os melhores jogadores sem se importar com a ideia de posição. O extraordinário André pode jogar de zagueiro, um atacante pode ser adaptado na lateral, etc. Ancelotti já faz isso de longa data.
Para não ter Pirlo no banco para meias e atacantes talentosos como Rui Costa, transformou-o em ‘regista’. Recentemente, colocou Camavinga de lateral-esquerdo. Ambos buscam jogadores de futebol, que possam aportar talento ao time, e que saibam dialogar com os outros talentosos.
C) Por fim, tanto Diniz quanto Ancelotti são tributários de uma organização ofensiva que se tornou contra-hegemônica. No Fluminense, Arias abandona a ponta-direita e atravessa o campo para dialogar com Ganso, Keno, André, Alexsander, Marcelo, etc.
Os jogadores se aproximam no setor da bola, passam a bola e vão adiante para recebê-la de volta. O time avança em campo pelos deslocamentos e tabelas. No Real Madrid, Rodrygo abandona a ponta-direita e atravessa o campo para dialogar com Karim, Vini, Modric, etc.
A organização ofensiva do Real Madrid ou do Milan do 4321 (sem pontas) e de tantos outros times do Ancelotti guarda semelhanças com o que faz Diniz com o seu “futebol aposicional”.
4- ANCELOTTI & DINIZ
Sabe-se que a intenção da CBF é que Diniz seja interino até a chegada de Ancelotti e que depois se torne membro da sua comissão técnica, quem sabe se preparando para o ciclo da Copa de 2030. É difícil especular o futuro.
A seleção brasileira pode arrebentar nas mãos de Diniz e Ancelotti jamais chegar.
A seleção pode arrebentar e Ancelotti chegar. Diniz pode ficar na comissão ou sair.
A seleção pode oscilar e a chegada de Ancelotti dar mais maturidade ao intento.
São muitas possibilidades a partir dessas linhas tortas. Diniz traz o mesmo que Low,Scaloni,Deschamps: adaptar a cultura futebolística do país às demandas do futebol contemporâneo. Ancelotti guarda afinidade com esse modelo de organização ofensiva, traz pragmatismo e experiência.
Experiência e juventude, exterior e interior, pragmatismo e frescor podem se combinar perfeitamente. Seja com a união dos dois ou apenas com um deles, o caminho para 2026 torna-se mais promissor.
Depois de muito tempo a CBF está olhando para o lugar certo: eles são respostas para o mesmo problema. O “italiano mais brasileiro do mundo” e o “brasileiro mais antropófago do nosso futebol” é uma combinação perfeita de sabores,potente o suficiente para criar sonhos e realidades
Essa thread é um resumo e uma adaptação do meu texto. Se você quiser ler mais argumentos sobre cada ponto, o que eu acho sobre os RESULTADOS de Diniz, e a relação com o Fluminense, leia no @opontofuturo:
opontofuturo.com

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