Rudá Ricci
Rudá Ricci

@rudaricci

18 تغريدة 42 قراءة May 13, 2023
Bom dia. Estou completando a terceira semana aqui no faroeste paulista. Em poucos dias, volto para minha vida sem rotinas. Farei um fio sobre o que percebi sobre a lógica desta região. Lá vai.
1) Já 1) disse em algum momento que eu não consigo desligar. Mesmo nas raras férias que tive na minha vida adulta, o radar de sociólogo tenta fazer análise das características culturais e comportamentais locais. Uma tortura, para ser sincero. Não está sendo diferente nesses dias
1) impressão que me passa é que a marca da vida social por aqui é o ressentimento. A região oeste paulista é a segunda mais pobre de São Paulo. A primeira é o Vale do Ribeira, que representa 0,5% do PIB paulista. Mas, exatamente onde estou, o valor agregado (VA) é muito baixa
3) Um estudo da Fundação SEADE (vinculada ao governo paulista) do início deste século, revelou que Marília, Presidente Prudente e Registro foram as regiões consideradas mais pobres, com menor rendimento salarial do Estado.
4) Ser mais pobre e com poucas oportunidades num Estado rico gera uma frustração diária que poderia fomentar revolta. Mas, não aqui. O que emerge da frustração é o ressentimento e a ostentação. Pode parecer paradoxal, mas é uma explicação do ambiente onde viceja a extrema-direita
5) Aqui não se valoriza pobre que supera esta condição e se revela crítico ao establishment. O sentimento é de que o ex-pobre estaria cuspindo no prato que comeu. Para ser vitorioso é preciso parecer com o opressor, se tornar um deles. Aí, imaginam, é a marca do sucesso completo.
6) As pessoas, por aqui, não são ruins. Elas são extremamente contraditórias. Os valores religiosos, nessas terras, guardam uma forte singularidade: é quase uma “religiosidade privada”, voltada para o benefício próprio. Não se expande para muito além dos círculos íntimos
7) Por aqui, a “cultura janeleira” cantada em prosa por João do Rio é palpável. Todos fingem não o ver andar na rua, mas todos são temas de conversas ao pé do ouvido, algo que é mais potente em dias de grupos de Whatsapp
8) A opinião pública é formada aos pedaços, em grupos comunitários que formam uma rede invisível. Nos dias que estava aqui, soube que um Zé Ninguém postou em algum grupo de Whatsapp que um “perigoso” visitante estava na cidade. Demorei para entender que falavam deste aqui.
9) O que gostaria de registrar é essa trama social mais imersa que a maçonaria e que inibe qualquer prática ou pensamento anti-hegemônico. Durkheim ficaria feliz em ver que suas teorias sobre a coerção social funcionam perfeitamente no faroeste paulista
10) Há, portanto, uma linha que liga estagnação econômica com a construção das teias da solidariedade mecânica conservadora e inibidora. Em outras palavras, o clientelismo se reproduz bebendo nas águas da pobreza e da inveja
11) Diria que é como o agronegócio explora a pequena propriedade rural. Para ter matéria-prima barata, precisa pagar pouco ao produtor inicial empobrecido e desesperado para não perder a safra. Quanto mais tempo demora para vender, menor é o preço pago pela agroindústria
12) Na política daqui, ocorre o mesmo: quanto mais sem alternativa e recursos de investimento um prefeito se encontra, mais fácil cair nas malhas do parlamentar ou secretário estadual de governo que lhe oferece uma promissória. Assim gira o clientelismo político por essas bandas.
13) A esquerda local acaba enredada nesta lógica circular e se envolve com as Cortes. Não tendo muito espaço para trabalhar a base social – dependente do beneplácito dos donos do poder econômico da cidade -, tentam acordos com quem usa e abusa das forças progressistas
14) O que temos são poucos vereadores progressistas que acabam fazendo acordos estranhos. O resultado é sempre o mesmo: o vereador desaparece e o seu partido continua preso ao olhar de águia do populista de direita que comanda o poder local.
15) Não são pessoas ruins, reforço. Como qualquer humano normal, é possível encontrar algum traço de solidariedade e empatia com o sofrimento alheio. Mas, todo humanismo por aqui é envolvido num embrulho ultraconservador embebido em ressentimento.
16) Há que se compreender que ninguém quer viver uma vida mais-ou-menos. Ninguém nasceu para não brilhar. Todo humano tem potencial para ser Papa. Alguns chegam a bispo, outros à padre. Mas, é difícil morar perto de um seminário e nem conseguir estudar por lá.
17) Sobreviver. Esta é a palavra que causa terror ou embrulhos estomacais por aqui. Ninguém que apenas sobreviver aqui no faroeste paulista. Querem mais que isso. Querem ser estrela, mas não conseguem ligar os pontos. (FIM)

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