Ganhando ou perdendo, o Real Madrid de Carlo Ancelotti trouxe uma graça inaudita ao futebol europeu de clubes por subverter o discurso oficial e trazer o jogo para o campo das paixões, das afeições e de outras formas de racionalidade.
elpais.com
elpais.com
1) O olhar contemporâneo do telespectador de futebol foi moldado na última década para enxergar apenas grandes atuações em times que operam igual os seus mecanismos por 90 minutos e subjuga o seu adversário.
Muitos esperam que uma equipe jogue igual por 90 minutos e duas vezes por semana. Mas o Real não joga igual nem por um minuto, maneja os seus ritmos, e sabe criar os seus próprios instantes dentro de cada partida. A divina comédia humana versus a ideia de máquina.
Nesse sentido, é interessante como o Flamengo de Dorival fazia o mesmo e era mal interpretado. Não jogava igual por 90 minutos, mas comia as partidas nos momentos certos. Era uma equipe que sabia aguardar e criar os seus próprios e mortais instantes.
2) No futebol de hoje, muitos treinadores fazem de tudo para minimizar o erro. Toque de primeira, ocupe o espaço correto, arrisque apenas quando necessário, não perca a bola, tome a decisão mais segura, etc.
Carlo defende o oposto: arrisque, erre, perca a bola, lute para recuperar, ganhe ritmo ao tentar, não tenha medo de jogar, descubra-se. Errar para acertar coisas grandes, mas também como parte do processo de autoconsciência: tornar-se mais seguro para os piores momentos.
Vinicius e Rodrygo ganharam personalidade porque são livres para arriscar movimentos e ações. São incentivados ao risco mesmo que mais propensos ao erro. A estrutura do Real abraça e não se constrange com esses erros.
3) Muitos treinadores gostam de dizer que o futebol é uma comunhão entre trabalho e sorte. Muitas vezes, você faria um trabalho perfeito, jogaria muito bem, mas perderia pela ação do acaso. Ancelotti vê o jogo como um mestre: ele navega no seu próprio destino, é amigo da fortuna.
Bailando, enganando o touro, os jogadores do Real vão se desvencilhando da pressa adversária até encontrar uma oportunidade quase imperdível. Não adianta 30 chutes atabalhoados ao gol, mas pausar e criar o seu próprio instante.
6) Num futebol cada vez mais próximo da ideia de biopoder, onde muitos treinadores pretendem controlar o corpo de cada jogador para torná-los mais dóceis a execução do sistema, definindo horário até para o sexo, Ancelotti é pura ironia.
Na vida e no futebol, estamos sempre esperando por Godot. Sabemos navegar na espera, na angústia, no esgotamento? Tudo é planejado e treinado milimetricamente durante a semana, mas cada novo segundo é o império do inesperado. Dentro e fora de campo, vivemos confortáveis com isso?
Para além das vitórias e derrotas, o Real de Ancelotti nos areja porque retira o futebol daquele racionalismo estreito e operatório, mostra as ambiguidades, as incongruências, o vazio, as utopias num campo de futebol. Busca o frescor da vida e não o profissionalismo militar.
جاري تحميل الاقتراحات...