József Bozsik
József Bozsik

@Jozsef_Bozsik

41 تغريدة 215 قراءة Mar 28, 2023
RAIO-X DO DESMONTE (PARTE 2): O FUTEBOL BRASILEIRO
O ano é 2002. O Brasil é pentacampeão. O Brasileirão termina com a revelação dos novos meninos da Vila. Temos, no mínimo, uma dezena de jogadores entre os 50 melhores do mundo.
Segue o fio 🧶
Os times médios e regionais vão bem. O Juventude ganha a Copa do Brasil em 99. O Atlético-PR vence o Brasileirão 01. O São Caetano é vice da Libertadores. O Paysandu vence a Copa dos Campeões. O Sport, o Coritiba e o Vitória-BA fazem sempre boas campanhas.
2002 é o fim de um ciclo, pois, a partir de 2003, o futebol brasileiro sofrerá uma série radical de mudanças. 20 anos depois, as mudanças continuam e podemos observar melhor os frutos dessa árvore.
O QUE MUDOU?
1) O Brasileirão torna-se de pontos corridos e com 20 clubes aos moldes europeus.
2) Com o fim do Clube dos 13, a divisão de cotas transformou-se.
3) O futebol brasileiro adaptou suas regras formais ao modelo FIFA/europeu, com a padronização e diminuição dos campos.
4) O modelo de jogo dos clubes mudou radicalmente. Entre 02 e 10, uma mudança para um jogo mais defensivo, físico e direto. Após 10, e turbinado em 14 pelo 7 a 1, aposta num jogo mais posicional. Em torno de 70-80% dos times da 1ª e da 2ª divisão jogam em modelos mais posicionais
5) A base brasileira substituiu os ex-jogadores pelos formados em educação física e nos cursos de treinadores. Hoje, em torno de 90% da base brasileira também adota metodologias mais posicionais.
RESULTADO 1: O DESMONTE DOS CLUBES MÉDIOS E REGIONAIS
O Brasil possui em torno de 215 milhões de habitantes. Se unirmos Itália, França e Inglaterra não chegaremos aos 190 milhões de habitantes. Somos um país continental com muitos centros regionais e locais.
Países europeus com 60 milhões de habitantes elaboram um campeonato de 20 clubes porque possuem 4 clubes grandes, 5 clubes médios, e esse sistema permite que o futebol chegue em todas as regiões de maneira estável. O ecossistema do jogo mantém-se comunitário.
No Brasil, ocorre o oposto. Tínhamos 12 clubes grandes e uns 20 clubes regionais de médio porte. Com o campeonato de apenas 20 clubes, esses clubes regionais e médios tiveram que conviver com rebaixamentos e acessos constantes, dificultando qualquer tipo de planejamento.
Para não perder jogadores de graça, é preciso fazer contratos mais longos. Com o rebaixamento, você perde uma grande quantia em seu orçamento para arcar com os custos já contratados para os próximos anos. O melhor do seu patrimônio acaba sendo liquidado em cada rebaixamento.
Se o seu clube tem muita torcida, irá pressionar por respostas rápidas. Por isso, nesse modelo de “sobe e desce”, clubes pequenos, com menor torcida, acabam se dando melhores.
A má administração não explica tudo. Grandes clubes europeus como Barcelona, Juventus e Real passaram por sérios problemas administrativos nos últimos 20 anos, contudo, a estrutura e o modelo de negócio favorecia e facilitava uma reorganização.
Os clubes foram mal administrados, mas a estrutura do campeonato impede uma reação com eficácia de todos eles. Durante os últimos 20 anos, foi comum um time médio ser rebaixado da primeira para segunda e, logo depois, da segunda para terceira. Para disso, nunca mais se recuperar.
O Criciúma colecionou dois rebaixamentos consecutivos em 2004 e 2005. O Paysandu, depois de vencer o Boca em 2003, caiu consecutivamente em 2005 e 2006 e nunca mais se recuperou. O Vitória-BA acumulou rebaixamentos em 2004 e 2005. O Santa em 2006 e 2007. A Portuguesa em 13 e 14.
Quando a Superliga foi criada na Europa, os governos agiram para destruir a iniciativa. O motivo era simples: uma competição semanal com apenas 20 clubes significaria o fim dos clubes médios e regionais de cada país, a desestabilização regional do ecossistema do futebol nacional.
O jogo ficaria concentrado em poucas cidades e para pouca gente. Eles entenderam o básico. Nós não entendemos. Sendo um país continental, ao criarmos um campeonato nacional de pontos corridos e com apenas 20 clubes, estávamos matando os clubes médios e regionais
na primeira derrapada administrativa devido ao modelo de “sobe e desce” de divisão. Estávamos matando também o sistema do futebol em Recife, Natal, Belém, Campinas, etc.
RESULTADO 2: SÓ REVELAMOS EM SP/RJ/MG/RS
Um flamenguista em Natal não é menos que um carioca. Porém, se o ABC e o América não tiverem alguma relevância, os interessados no futebol e os jogadores revelados no local será menor, mesmo que existam muitos torcedores dos grandes.
O aspecto comunitário é fundamental. O segredo dos esportes americanos é que um morador de Mansfield pode assistir da arquibancada um jogo de futebol americano do colégio local na sexta-feira, pode pegar o seu carro no sábado e ir até Columbus para assistir o jogo de Ohio State
(a universidade em que se formou), e no domingo pode assistir a um jogo de NFL pela televisão. O sistema de esporte vai do menor ao maior, mas não perde o seu aspecto comunitário. Os jogadores são formados em todos os locais e não apenas em alguns punhados.
Ao destruir os clubes médios e regionais, destruímos também o interesse do futebol e a revelação de jogadores nesses locais. A convocação de jogadores para Copa do Mundo nos últimos anos é contundente a respeito.
Em 1990, 9 estados estavam representados entre os 22 jogadores convocados. Os jogadores nascidos em SP/RJ eram apenas 45%. Em 02, 06, 10 e 14, tivemos sempre 8 ou 9 estados representados entre os convocados. Em 18 e 22, esse número caiu para apenas 7 estados.
Pior: aumentou a quantidade de jogadores que nasceram em SP/RJ/RS/MG. Na Copa de 2002, apenas 56% vinham desses 4 estados, e 44% dos demais. Na Copa de 2022, em torno de 85%(!) dos convocados eram desses 4 estados. O gráfico mostra a nova concentração na revelação de jogadores:
Ou seja, nos últimos 20 anos, cresce constantemente a proporção de jogadores convocados para Copa que nasceram em Minas, Rio, São Paulo ou Rio Grande do Sul. A fonte secou nos demais estados porque acabamos com os clubes médios e regionais. Concentramos o futebol.
Ao matar o futebol em Natal, Belém, Recife, entre outros, matamos as raízes comunitárias do jogo e um interesse maior pelo jogo nesses locais, e também diminuímos as chances de encontrar e formar grandes jogadores nesses centros. A seleção e o futebol se tornaram menos nacionais.
RESULTADO 3: AS DÍVIDAS AUMENTARAM E O FIM DOS 12 GRANDES
Em 2000, as receitas do Madrid estavam em torno de 270 milhões de reais. Sabe-se que o orçamento do Corinthians em 99 ultrapassava os 100 milhões de reais com os investimentos da Hicks, Muse, Tate & Furst Incorporated.
Só em contratações, em 1999, foram gastos 53 milhões. Hoje, o faturamento do Madrid está em torno de 4 bilhões de reais, enquanto o Flamengo chega ao faturamento de 1 bilhão. Ao contrário do prometido, a distância de receitas aumentou nos últimos 20 anos.
www1.folha.uol.com.br
É verdade que clubes como Flamengo e Palmeiras estão melhores hoje em comparação aos demais clubes do que estavam vinte anos atrás, mas esse é um triunfo aparente e de médio prazo.
O sistema matou os clubes médios e regionais. Agora, está matando a ideia de “12 grandes”, limitando esse espaço para 3 ou 4 como ocorre na ITÁ, na ESP, na FRA. O próximo passo após a desestabilização do ecossistema pode ser também a desaceleração das receitas dos “novos grandes”
O interesse pelo futebol caiu no Brasil. As audiências caíram na televisão. As transmissões pela internet são uma nova fonte, mas que pagam bem menos do que a Globo. Ao matar o seu ecossistema comunitário, o futebol brasileiro está se tornando um produto de nicho.
Através dos programas de sócio-torcedor, os estádios estão lotados por um nicho que consome cada vez mais o futebol 24 horas por dia. Contudo, fora desse nicho, o futebol está menor no Brasil. Os mais pobres e os mais jovens se interessam menos pelo jogo.
www1.folha.uol.com.br
O desmonte do nosso ecossistema também não diminuiu a velocidade de endividamento dos clubes acima do ritmo de crescimento das receitas. A SAF é uma incógnita e, por enquanto, parece mais um modelo colonial de plantation: vender matéria-prima para o primeiro mundo.
RESULTADO 4: PERDEMOS A IDENTIDADE E NÃO REVELAMOS O MESMO
Desde que o futebol brasileiro tornou-se independente dos ingleses, e incorporou o estilo e as características do nosso povo, o futebol jogado por nossos clubes sempre influenciou e costurou a seleção brasileira.
Em 1958, quase todos os nossos clubes de futebol já jogavam numa espécie de 4231 com falso-ponta, diagonais, etc. Em 1970, o sistema de Zagallo com diagonais ofensivas/defensivas, meias e atacantes vindo da extremidade, já havia sido testado no Botafogo e ocorria em vários clubes
Nos anos 1990, raramente se via um time brasileiro que não fazia ataque funcional e jogava no 4222 ou 4312. A seleção brasileira era representante do que se fazia no futebol brasileiro. Os treinadores que eram vistos como opções para seleção estavam dentro dessa mesma cultura.
O futebol brasileiro, em geral, perdeu sua identidade e virou uma mera imitação da miragem que chamamos de “futebol europeu”. A base brasileira está voltada para criar jogadores a partir das metodologias mais posicionais e que se adaptem facilmente ao modelo hegemônico na Europa.
Continuamos revelando grandes jogadores, mas num nível inferior. Em 1970, tínhamos no mínimo 6 jogadores (Pelé, Jair, Riva, Gerson, Torres, Tostão) entre os 15 melhores do mundo. Em 1982, tínhamos 4 jogadores (Zico, Falcão, Sócrates, Júnior) entre os 10 melhores do mundo.
Em 1998, tínhamos 4 jogadores (Ronaldo, Romário, Roberto, Rivaldo) entre os 10 melhores. Nos últimos dez anos, só tivemos Neymar entre os melhores jogadores do mundo. Agora, temos também Vinicius Júnior. Ainda é muito pouco para o que fazíamos.
O QUE FAZER?
Eu não sou necessariamente contra qualquer tipo de mudança que ocorreu ou poderia ter ocorrido no futebol brasileiro. Todavia, sejamos francos: nenhum estudo foi feito para as mudanças que ocorreram. Imitar a estrutura de futebol da Europa foi o único argumento.
Por que pontos corridos e não mata-mata? Por que 20 clubes e não 24, 18, 22, 26? Por que a hegemonia posicional? Por que diminuir a dimensão do campo? A resposta para todas essas perguntas é simples: na Europa, é assim. Essa resposta não nos serve.
Imitemos a Europa se chegarmos a conclusão de que é o melhor caminho e estamos obtendo bons frutos, mas precisamos de estudos transdisciplinares e reflexão sobre cada uma dessas mudanças. 20 anos depois, não é cedo para dizer que os frutos dessa árvore estão piores do que eram.

جاري تحميل الاقتراحات...