József Bozsik
József Bozsik

@Jozsef_Bozsik

47 تغريدة 126 قراءة Mar 27, 2023
RAIO-X DO DESMONTE (PARTE 1): A SELEÇÃO BRASILEIRA
A seleção está em crise de identidade desde o 7 a 1. Com exceção de um breve momento entre 16/17, quando nos reconhecíamos não só pelas vitórias, mas pelo estilo que emanava do campo, não sabemos nos diferenciar dos demais. 🧶
Como falou Lillo, se a seleção brasileira trocar de camisa com os camaroneses, ninguém sentirá diferença. A seleção que gerava expectativa no mundo por apresentar um 'outro esporte', tornou-se igual às demais. Após o 7 a 1, fizemos diagnósticos errados dos nossos problemas.
DIAGNÓSTICO ERRADO 1: ATRASO TÁTICO
Dentro de certa medida, as teses de Darwin sobre a evolução biológica das espécies e os mecanismos de seleção natural se mostraram corretas. Contudo, quando retiradas das ciências naturais para explicar a sociedade, a cultura e os afetos,
causaram uma violência inaudita. O darwinismo social tratava a sociedade como um grande organismo que estava em constante evolução. As culturas mais evoluídas eram mais aptas, dominavam e moldavam as demais pelos mecanismos de seleção natural.
Na vida social, a cultura mais evoluída era mais apta para dominar e se sustentar no ambiente, cabendo aos demais a adaptação. Essa teorias justificavam o imperialismo a partir do final do século XIX e a dominação cultural.
Por exemplo, o império inglês seria não apenas uma comunidade de negócios e leis, mas também uma decorrência natural da vida social, onde os mais aptos moldam os menos aptos. O desaparecimento das formas culturais de outros povos seria uma decorrência necessária.
Além disso, o darwinismo social também estimulou o aparecimento da eugenia e de várias teorias sociais racistas, sendo estas uma parte fundamental do nazismo. Essas teorias não eram apenas equivocadas, como também estimularam uma violência inaudita no século XX.
O interesse pela história da tática ganhou impulso recente. Infelizmente, essa historiografia tem adotado tons darwinistas para falar dos sistemas. Tomamos como pressupostos que a tática do futebol evolui, sendo que cada nova voga dominante engole a anterior e a torna obsoleta.
Criou-se a narrativa dos grandes sistemas que se substituíam e tornavam o anterior obsoleto: 235 -> 325 -> 424 -> 433 -> 442 -> 4312 -> 532 -> 451. Para além, a dominância dos modelos: com o domínio do paradigma guardiolista, o resto torna-se obsoleto. A seleção natural agiria.
Essa narrativa dos grandes sistemas é confirmada pela apresentação dos times nos jornais, mas nunca pelo campo. Com a ampliação do compartilhamento de jogos na internet, não há mais desculpa para evitar as fontes primárias (os próprios jogos).
Por exemplo, com o pouco material disponível da Copa de 1930, já dá para perceber que os times estabeleciam várias vezes uma linha de 4 sem a bola a partir dos encaixes de marcação. Com a filmografia dos anos 50, a linha de 5 sem a bola também está presente na Suíça e em outros.
Até hoje, discutem quem criou o 532, mas o Uruguai e o Penãrol na década de 1960 já jogavam no chamado 532. A Copa de 1990, dita como a Copa do domínio do 532, que demonstrava que todo o resto estava obsoleto, tinha mais seleções fazendo linha de 4 do que de 5.
O campo nega muitas narrativas construídas a partir dos jornais antigos. Por exemplo, dizem que o Brasil ganhou a Copa de 58 porque deu o próximo passo na evolução tática com o 424. As imagens da Copa e dos times do Brasil na época desmentem facilmente essa narrativa.
Quase todos os grandes times do Brasil já jogavam desde 1955 com dois zagueiros bem definidos, dois volantes, e um ponta que era mais um meia. A nossa dupla de zaga em 58, Bellini e Orlando, já jogavam assim no Vasco da Gama. Não só o Brasil como as demais seleções também.
Se na Copa de 30 já havia a presença da linha de 4, na de 58 não era diferente, como também não era na de 54 quando um húngaro recuava e se tornava um quarto-zagueiro sem a bola. Czibor também já era um ponta que atravessava o campo. Não havia evolução alguma em 54 ou 58.
A polêmica está mais nos jornais. Se, dentro do campo, o jogo é fluído, nas linhas impressas, o jornalista precisa ser didático com o público. Em 58, todos os times do Brasil jogavam com dois zagueiros, mas as escalações ainda eram divulgadas como se fosse um 325 de base.
Em síntese, o famoso argumento da evolução tática é mais um problema jornalístico de apresentação ao público do que uma realidade vista no campo. O futebol muda com o tempo, mas não dentro de parâmetros evolucionistas ou pela explicação fornecida pelo darwinismo social.
O futebol contemporâneo adapta coisas que sempre existiram no jogo. O futebol de intercâmbio espacial e domínio de zonas de Rinus Michels nunca esteve atual ou ultrapassado desde 1974. Sempre esteve aí no futebol, pronto para ser adaptado para as demandas do futebol contemporâneo
Do mesmo modo, as características do futebol brasileiro nunca foram atuais ou ultrapassadas, mas sempre estiveram aí para serem adaptadas para as demandas do futebol contemporâneo.
Com a visão darwinista dominando no debate tático, o futebol e a cultura brasileira foram tratados como obsoletos e superados pelos mecanismos de evolução do jogo após o 7 a 1. Era preciso abandoná-los para imitar e aprender com o jogo dos mais aptos.
É como se no futebol tivesse sempre a espécie mais evoluída, que vence e torna o resto em estilo obsoleto. O futebol brasileiro precisava imitar essa “espécie mais evoluída” após o 7 a 1. A miragem que desempenhou esse papel foi Pep e suas atualizações do jogo posicional.
Durante a era Tite, não só a seleção profissional, como as bases dos clubes e da seleção do sub-20 ao sub-9, imitaram as metodologias e o estilo posicional de Pep. Conversando com pessoas da área, dizem que no mínimo 90% da base brasileira fala uma monolíngue posicional.
Desde 2018, Tite tornou a seleção brasileira numa mimese mal sucedida do Manchester City. Onde estaria o tal “atraso tático”? Não há recém-formado em educação física no Brasil hoje que não conheça as metodologias hegemônicas, que não saiba implementá-las.
goal.com
Aderimos bovinamente à tese darwinista e buscamos implementar o máximo possível perto do 100% o “jogo dos mais aptos”. Todavia, a realidade nos desmente diariamente e não percebemos o nosso erro.
Se o City é vencedor, o Real Madrid, fazendo todo o inverso do City, ganhou CL atrás de CL na última década. A Argentina foi campeã do mundo sem extremos, sem jogar a partir das posições, mas resgatando as suas origens no toco y me voy e em La Nuestra.
Não existe uma tática mais evoluída, mas coisas que sempre existiram no futebol e que estão sempre lá para serem atualizadas para as demandas contemporâneas do jogo. O problema do 7 a 1 não era o 'futebol brasileiro' em si, mas a sua adaptação às demandas do futebol contemporâneo
DIAGNÓSTICO ERRADO 2: NÃO JOGAMOS CONTRA EUROPEUS
É comum repetirem que o problema da seleção brasileira é não jogar mais contra seleções europeias. Desde 70, o Brasil fazia excursões no anterior da Copa pela Europa. Ganhou alguns mundiais e perdeu outros tantos.
O amistoso contra diversas escolas é boa experiência, mas não é determinante e nem aumenta o nosso nível de jogo. Em primeiro lugar, amistoso é feito para testar coisas e vislumbrar algumas melodias nas relações entre os jogadores. Sentir o que encaixa e o que não encaixa.
As seleções europeias ou de outros continentes buscam isso e não uma legitimação do trabalho através do placar de um amistoso. A Argentina pouco jogou contra europeus nos últimos 4 anos e colocou a França na roda por 75 minutos, esmagou a Croácia na semi por 3 a 0.
Com razão, os europeus não dão importância aos amistosos. O Brasil não estará preparado para Copa porque venceu França e Itália em dois amistosos de véspera. Mais importante do que a obsessão por jogar contra europeus,é utilizar o amistoso para encontrar essa melodia nas relações
Além disso, é melhor jogar 50 mil vezes em território brasileiro contra o Taiti, o Panamá e a Indonésia do que jogar todos os seus amistosos na Europa.
DIAGNÓSTICO ERRADO 3: FALTAM OS QUE JOGAM NO BRASIL
Virou tema recorrente: a seleção brasileira teria “europeizado” porque os nossos jogadores foram para Europa. Mais uma vez, os nossos vizinhos argentinos nos desmentem.
Com a camisa da seleção argentina, Messi joga como se estivesse num potrero de Rosário. De Paul não se tornou ‘europeu’ porque joga no Atlético de Madrid. Di Maria não virou ‘europeu’ porque terminou a sua formação no Benfica.
O jogador não perde a sua experiência de formação porque foi jogar profissionalmente na Europa. O importante é reaquecer essa memória afetiva quando ele atravessa o oceano e veste a camisa da seleção. Torná-lo confortável com outras pessoas, noutro estilo de jogo e afeição.
Além disso, do que adianta reclamar que o jogador brasileiro está terminando a sua formação na Europa se 90% da base brasileira de hoje implementou um estilo que nos é estranho e quase antagônico ao que se reconheceu lá fora como o "jogo bonito" brasileiro?
A seleção brasileira não vive crise de identidade porque os seus jogadores atuam na Europa. A seleção vive essa crise porque afastamos o povo do jogo, colocamos a nossa cultura numa lata de lixo, negamos a “nossa tecnologia”,
aceitamos o discurso hegemônico e darwinista de que somos espécies obsoletas e menos aptas, rebaixamos a seleção brasileira à mera sucursal de um clube que é soft power do Emirados Árabes.
QUANDO NOS PERDEMOS?
O maior problema da seleção brasileira é a sua crise de identidade. As pessoas olham para a camisa amarela em campo e veem um time banal do futebol contemporâneo em campo. Não há nada de especial. Não há qualquer traço de vitalidade do “jogo bonito”.
Não há nada que nos distinga da Lazio, do Anderlecht, do Girona, de um clube da MLS, da seleção da Suíça. Somos um time comum fazendo um jogo comum num estilo hegemônico, dominante e disseminado. Somos um time qualquer, jogando contra as raízes do chamado “futebol brasileiro”.
É óbvio que o “futebol brasileiro” não é uma essência e nem uma natureza, mas uma comunidade imaginada. Isso significa dizer que gostamos de nos imaginar assim, gostamos de imaginar o futebol brasileiro a partir daquelas características.
O ser humano é lúdico, cria o seu mundo através de imagens e afetos. Nos sentimos pertencidos, nos sentimos bem quando imaginamos uma seleção brasileira jogando como a de 58, 70, 82, a dos anos 90, como os times de Telê e Luxemburgo.
A maior derrota não é perder a Copa, mas abandonar a si mesmo. Abandonar afetos e imagens. Abandonar a admiração do mundo por nosso estilo irreverente e flexível. Perder para Croácia, Bélgica ou um 7 a 1 é nada diante desse abandono de si mesmo, diante dessa negação do seu povo.
A seleção precisa ser vista como um patrimônio cultural do seu povo e não um mero time que escolhe um estilo num supermercado chique. O “jogo bonito” brasileiro nunca será obsoleto, estará sempre disponível para ser adaptado para as demandas atuais do jogo.
Será sempre uma fagulha de alegria eterna em nosso coração. Esse estilo está abandonado, escorraçado, esperando por uma carícia dos que comandam a seleção. O povo aguarda com ansiedade identificar-se novamente com a seleção enquanto a CBF se faz de surda.
De todos os técnicos europeus, se há um em que esse resgate de identidade é possível se chama Carlo Ancelotti. A sua história, as suas características, a sua visão de mundo possui afinidades eletivas com o nosso jogo. Contudo, eu tenho dúvidas. Será que apenas isso é necessário?
Um técnico que não fala a nossa língua, nunca viveu (e nem viverá) aqui, que nunca teve contato mais próximo com o nosso povo, fará o resgate de nossa identidade? Mesmo com tantas afinidades, será o nome mais indicado para isso?
Não estaríamos apenas a busca de uma grife europeia para nos conduzir para essa miragem chamada ‘futebol evoluído’? Eu tenho esperança, mas também muitas dúvidas.

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