Rudá Ricci
Rudá Ricci

@rudaricci

21 تغريدة 20 قراءة Feb 20, 2023
Bom dia. O fio de hoje é uma extensão da discussão do ano passado sobre o valor das pesquisas quantitativas de opinião. Vou sugerir que a realidade é o que interpretamos, não exatamente o que vemos. Vamos lá:
1) Comecemos com a neurologia. Em 1957, Edwin Land - o inventor da Polaroid – produziu duas imagens em preto-e-branco e as sobrepôs numa tela com um projetor de lente dupla. Usou dois filtros para fazer as imagens: vermelho e verde (ondas com tamanho diferente)
2) A primeira imagem foi projetada com filtro vermelho e a segunda com luz branca. Esperava-se que isso produzisse uma imagem num tom rosa, mas todas as cores da retratada explodiram na fotografia: cabelos louros, olhos azul-claros, casaco vermelho, gola azul esverdeado
3) Esta experimentação foi retratada no livro “Um antropólogo em Marte”, do neurologista Oliver Sacks, que a descreveu como ilusões que demonstravam uma verdade neurológica: as cores não estão no mundo, mas são construídas pelo cérebro.
4) Land sugeriu que a cor que vemos depende de toda uma cena e da comparação entre a composição do comprimento de onda da luz refletida a partir de cada ponto e da luz refletida do entorno. O que vemos, assim, é uma aproximação ou uma interpretação do cérebro.
5) Semir Zeki, nos anos 1970, distinguiu células do cérebro de macacos (áreas V quatro), que parecia especializada em responder à cor. Melhor: havia células no córtex visual primário dos macacos que respondiam especificamente ao comprimento de onda e, outras, à cor.
6) A cor pode ser produzida por estímulo magnético da região chamada V quatro, causando a visão de halos coloridos, os cromatófenos. Por muito tempo tive episódios de “enxaqueca com aura” em que apareciam espontaneamente esses “bastões coloridos”, em minhas enxaquecas visuais.
7) Alguns autores chegaram a se perguntar se um homem poderia perceber uma cor que nunca tivesse visto antes. A integração ou diálogo entre vários sistemas neurais fundem a cor com a memória, com expectativas e associações e desejos de criar um mundo que faça sentido
8) O poder da expectativa envolve até daltônicos que não conseguem distinguir os frutos vermelhos contra uma folhagem verde-escura, até alguém apontá-los para elas. Nossas células, afirma Sacks, precisam da amplificação do intelecto e da expectativa
9) Agora, ampliemos um pouco o espectro de análise do que “o cérebro vê”. A ilusão de Müller-Lyer - desenvolvida pelo psiquiatra Franz Müller-Lyer, em 1889 – é um excelente exemplo de como o cérebro nos ilude. Vejam a ilustração.
10) A ilustração indica duas retas aparentemente idênticas, mas com ângulos invertidos em suas extremidades, aparentam possuir tamanhos distintos: aquela que possui o ângulo voltado para dentro aparenta ser menor.
11) Ocorre que, ao medirmos as linhas, eliminando os colchetes das extremidades, descobrimos que as retas são de tamanho idêntico. Müller analisou alucinações nos livros “Fisiologia Comparada da Visão de Homens e Animais” e “Fenômenos Fantásticos da Visão”, em 1826.
12) O psicólogo Richard Gregory classificou, em 1997, dois tipos de ilusões: físico e cognitivo, sendo que o tamanho das linhas entre setas corresponde a uma ilusão cognitiva. Veja este interessante artigo de Márcio Luís Ferreira Nascimento a respeito: revistaquestaodeciencia.com.br
13) O estatístico Edcarlos Miranda de Souza publicou um vídeo sobre a experiência que estou descrevendo : youtube.com
14) A proposta de análise que apresenta neste vídeo coloca dúvidas sobre as respostas a uma survey. No vídeo, Edcarlos revela que a sequência entre duas questões apresentadas a um respondente pode levar a respostas opostas.
15) O século XXI vem se apresentando como o da apresentação de interpretações sobre o que vemos e sentimos. Nem mesmo temos certeza se o que gostamos e até os valores que explicitamos são originários de nossas convicções ou subproduto de fake news.
16) O mundo do espetáculo analisado por Debord explode diariamente na nossa frente de tal forma que mudamos de opinião a cada instante.
17) Numa linha teórica próxima à de Debord, Christoph Türcke sustenta que nosso olhar está totalmente capturado pelo espetáculo e pela excitação. Türcke é filósofo alemão, professor da Escola de Artes Visuais de Notre Dame e foi professor visitante de filosofia na UFRGS.
18) Sua tese é que a difusão acelerada da informação cria um efeito ambíguo sobre o que vemos e o que formulamos como interpretação da realidade. A noção cartesiana que estabelece que a razão ordena um mundo caótico parece cada vez mais relativizada.
19) O mundo é cada vez mais o que queremos que ele seja – daí o viés de confirmação – ou resultado da captura da nossa mente por fake news ou pela desorientação da explosão de informações.
20) As certezas definitivas sempre atrapalharam mas, agora, podem nos levar ao fanatismo profundo. (FIM)

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