Rudá Ricci
Rudá Ricci

@rudaricci

25 تغريدة 153 قراءة Jan 08, 2023
Bom dia. Prometi um fio sobre a nova composição do MEC. Começarei sobre a filosofia geral: o modelo Sobral. Muito festejado pelos empresários e disseminado pela grande imprensa. Vamos lá:
1) O modelo Sobral tem sido reconhecido como um exemplo de gestão educacional e de qualidade de ensino. Graças aos resultados expressivos obtidos do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica.
2) Comecemos pelas características da gestão municipal de Sobral. As famílias que mandam e que historicamente se revezam no poder são, segundo a tese de Diocleide Ferreira “os Sabóia, Gomes Parente, Ferreira da Ponte, Ferreira Gomes, Frota, Prado, Arruda, Barreto, Ponte, Portela"
3) Em seu trabalho intitulado “A (re) invenção de uma cidade: Cid marketing a requalificação urbana em Sobral-CE“, o autor sustenta que uma das marcas da de Sobral é o parentesco como fator marcante na vida social e política local.
4) No início de seu mandato, Cid Gomes tinha como Secretário de Educação seu irmão Ivo. Com parcerias com organizações como o Instituto Airton Senna e o Alfa e Beto, implementou uma política educacional muito peculiar.
5) Focada nas avaliações externas, a política educacional de Ivo, privilegiou a formação de professores com material produzido pelas organizações empresariais, forte gerencialismo e concentração de esforços pedagógicos em apenas duas áreas: português e matemática.
6) Marcos de Aguiar Villas-Bôas, doutor pela PUC-SP e ex-secretário do Trabalho e Desenvolvimento Econômico de Sobral (CE) na gestão de Ivo Gomes, sustenta que os dados de Sobral são manipulados. Para Villas-Bôas, a educação sobralense adota como foco o treinamento para testes
7) Em texto publicado pela Revista Carta Capital com o título “A verdade do Ideb de Sobral“, embora reconheça que do ponto de vista administrativo Sobral tenha evoluído, afirma que os números do Ideb são manipulados de forma engenhosa.
8) Em seu artigo, afirma: “diferentes professores contam que alunos bons do mesmo ou de outros anos são postos para fazer provas de alunos ruins ou doentes ou detentos, por orientação de alguns professores, que recebem (...) 500 reais a mais (...)”
10) Pois bem, a Secretária Executiva do MEC, cargo similar ao de “ministro adjunto” da pasta, é a ex-governadora do Ceará e uma das mentoras do modelo Sobral, Izolda Cela. O modelo Sobral, como veremos, se espraia pelos cargos do primeiro escalão do MEC.
11) Esta concepção está nos nomes de Maurício Holanda, ex-secretário de Educação de Sobral (agora, SASE); Denise Pires de Carvalho, reitora UFRJ (agora no SESU), Kátia Schweickardt, secretária de Educação de Manaus (agora, no SEB); e Manuel Palácios, no comando do INEP.
12) Sobre Manuel Palácios, Luiz Carlos de Freitas publicou o artigo "A entrega do MEC à lógica empresarial” onde afirma que a nomeação de Palácios, “encerra as possibilidades de pensarmos em uma atuação renovada, fora dos cânones da reforma empresarial da educação”.
13) Freitas vai além e cita o nome de Katia Schweickardt para a Secretaria de Educação Básica do MEC que, como Secretária Municipal de Educação em Manaus na gestão de Arthur Virgílio Neto, do PSDB, “desenvolveu uma gestão com programas em interface com a iniciativa privada"
14) Conheço Palácios quando fomos consultores da Secretaria de Educação de MG na gestão Murilo Hingel/Itamar Franco. Eu assessorava na implantação de um programa de formação continuada e Palácios implantava o SIMAVE, precursor do IDEB. Tivemos divergências.
15) Eu argumentava que a avaliação que Palácios adotava era atrasada, chamada avaliação classificatória, que se baseava num padrão idealizado de aluno, sem se aprofundar no perfil das suas condições reais de desenvolvimento, o que Paulo Freire denominava de “educação bancária”.
16) Palácios concordava comigo, mas dizia que a alternativa seria “por demais cara”. Nem houve estudo concreto para saber o custo da avaliação alternativa, denominada de “avaliação formativa”. Descartou.
17) Palácios foi para o MEC e se movimentou contra a elaboração da BNCC durante gestão Dilma. Seu esforço de criar conversas paralelas seguiu o mesmo rumo da SAE, que elaborou uma proposta não-pública de BNCC, sob a batuta de Mangabeira Unger.
18) Kátia Schweickardt é próxima de Manoel Palácios. O anúncio do seu nome no MEC gerou muitas críticas na rede de ensino de Manaus e Amazonas. Para quem desejar acompanhar a revolta ao nome dela, veja esta matéria: bncamazonas.com.br
19) Finalmente, Denise Pires de Carvalho, até então reitora UFRJ que liderou o processo de privatização de parte do patrimônio da UFRJ, nos moldes do Future-se, lançado por Weintraub no início do governo Bolsonaro-Guedes, vai para a SESU.
20) Há exceções importantes e auspiciosas na nova equipe do MEC, como Getúlio Ferreira, até então, secretário estadual de educação do Rio Grande do Norte. Muito elogiado pelos professores e técnicos dos Institutos Federais de todo país
21) Outro nome muito elogiado é o de Mercedes Bustamante, professora universitária chileno-brasileira; da UnB, integrante da Academia Brasileira de Ciências (ABC) desde 2015 e integrante da Academia Nacional de Ciências (NAS, na sigla em inglês) dos Estados Unidos.
22) A decepção bateu fundo em educadores engajados do país e sindicatos de professores. O projeto empresarial na educação revela que o PT abandonou a lógica freireana que norteou suas políticas na área.
23) Há algo a se lamentar, seja pela opção de Lula para a educação, seja pelas dificuldades das organizações e movimentos progressistas na educação brasileira que não conseguem se impor.
24) O campo progressista se tornou muito teórico e especializado e desaprendeu a fazer política. Já os empresários do setor fazem o caminho inverso. (FIM)

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