Havia um soldado com metralhadora ao lado do avião quando descemos em Istambul. Mais soldados com toda a parafernália de guerra espalhados pela pista. A ala de desembarque do aeroporto é um galpão sombrio. Os policiais em serviço eram homens sombrios.
Apresentei nossos passaportes com um mau pressentimento. Não falo turco e o policial não parecia disposto a falar qualquer outra língua que nos aproximasse. Vi tudo. Um mal entendido e acabaríamos na prisão pelo resto da vida.
Ou tentaríamos fugir, em pânico, e seríamos metralhados sem dó. “Visa”, disse o policial, entre outras palavras indecifráveis. Fiz aquela cara internacional de “sei lá”. Não tinha visa. Não sabia que precisava.
Sorri para me desculpar. Ele não aceitou as desculpas. Falou mais alguma coisa em sua língua infernal. Sempre de cara fechada. “Turista”, disse eu, querendo dizer “inofensivo” ou “débil mental”. Não adiantou. Precisava de visa.
Ou então — me explicou uma providencial funcionária do aeroporto em inglês, enfim uma língua cristã — teria de pagar 10 dólares.
Fui trocar dinheiro e deixei minha mulher, como garantia, cercada por turcos mal-encarados (redigi, mentalmente, o telegrama que mandaria para casa: “Mamãe vendida ao sultão. Segue carta”).
Depois, a Lúcia me contou que um dos policiais apontou para ela e perguntou, sério: “Argentina?”. Ao ser informado de que era brasileira, deu um sorriso, controlou uma bola imaginária com o pé, e exclamou “Pelé”.
Estávamos num país amigo.
Estávamos num país amigo.
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