Rudá Ricci
Rudá Ricci

@rudaricci

19 تغريدة 31 قراءة Dec 18, 2022
Boa noite. Prometi fazer um pequeno fio a respeito da tese muito interessante de Johann Chapoutot, exposta no seu livro "A Revolução Cultural Nazista". Sustenta que o nazismo provocou uma consciente revolução cultural, não uma loucura coletiva. Lá vai:
1) Segundo o autor, a loucura do III Reich foi algo muito diferente de loucura: obediência a ordens emitidas de acordo com as regras da cadeia hierárquica, atos de defesa do Reich e da raça e normatização, uma revolução cultural. Algo que promove um paralelo com o bolsonarismo.
2) Johann afirma que os nazistas tinham plena consciência de que aquilo que preconizavam chocava consciências há séculos educadas segundo os preceitos cristãos, kantianos, humanistas e liberais.
3) Os nazistas se preocupavam com o “sentimentalismo” alemão, o humanitarismo, como manifestações do que entendiam ser o eterno alemão simplório, “vítima da história e de seus inimigos, por sua indecisão e bondade”. Há algo de similar com a frieza de Bolsonaro durante a pandemia
4) Goebbels citava a necessidade de maturidade do povo alemão para entender a necessidade de uma missão histórica que violava todas as suas concepções morais, religiosas e ética.
5) A revolução cultural operou, então, com uma visão de mundo fundada na noção de comunidade e futuro baseada na expressão da natureza que decide a essência e vocação de cada um. A natureza, assim, seria palco de grandes massacres
6) Assim, o determinismo violento da natureza definiria uma justificativa para o processo de seleção da humanidade. A seletividade violenta passa a ser incorporada como essência da dinâmica natural.
7) Uma tese tão insensível só prosperou em virtude dos ganhos materiais que o nazismo inicialmente promoveu na vida da maioria do povo alemão. A guerra passou a ser desejada pelos profissionais médios que se mostravam impacientes por tomar o poder na Alemanha e dominar a Europa
8) Aqui entra o papel da cultura no projeto nazista. A ideia central de que uma catedral ou pintura não é produto da inspiração individual, mas determinada pelo sangue e solo ("Blut und Boden"). Trata-se de uma concepção determinista, biologista.
9) Desta vertente, surge o revival de Platão e Esparta por estudiosas das letras clássicas e da história antiga na Alemanha. Para Hans Gunther, chefe do Partido Nazista, Platão seria um pensador do Estado, não um “representante da teoria das ideias”.
10) Mais: Platão seria, para Gunther, a realização do homem completo, pensador, desportista e guerreiro. Enfim, um homem nórdico, descendente da mais alta nobreza da Ática. Uma reinterpretação radical da figura do filósofo grego.
11) Platão seria um homem da ação política, base da “educação racial”, segundo Bernhard Rust (Ministro da Ciência, Educação e Cultura Nacional de 1934 a 1945, ideólogo dos novos currículos alemães de 1938). O filósofo Joachim Bannes afirmaria que seria um “kampfer” (combatente)
12) Fiquei pensando sobre o paralelo com o bolsonarismo. Muitos teóricos apontam diferenças importantes do bolsonarismo até mesmo com o fascismo: ausência de partido de massas e ultraliberalismo seriam marcas de distinção.
13) Mas, um traço pouco discutido é a ausência de uma concepção teórica ou cultura que defina uma visão de mundo mais articulada por parte do bolsonarismo. O fascismo se baseou na ideia - dentre outros - da "Nação Proletária".
14) O nazismo mergulhou na revisão filosófica e produziu uma interpretação da essência humana e da natureza. E o bolsonarismo? Qual a formulação que construiu? Seria justamente uma espécie de populismo rebaixado enquanto movimento cultural, uma espécie de leitura kitsch
15) O discurso bolsonarista valoriza o popularesco, a cultura de fácil consumo e a ostentação e autoafirmação de quem se vê massacrado pelas elites culturais. É aí que entra o sertanejo universitário, essa recriação do country estadunidense.
16) O bolsonarismo incentiva o despertar dos bagrinhos, a revolta do Zé Ninguém, do fracassado e do anjo torto.
17) O bolsonarismo não produziu uma formulação acabada de cultura como o fascismo e o nazismo. Produziu uma acolhida, um apelo, um chamado para os que sempre estiveram no fim da fila. Daí não poder ter sofisticação conceitual. Precisa tocar no sentimento mais recôndito
18) Trata-se de uma espécie de "fascismo moreno", vinculado à bricolagem cultural brasileira com inúmeras referências cotidianas. Uma revolta, não revolução; um pouco de loucura e ressentimento. Nosso fascismo é peculiar e o livro de Johann ajuda a enxergá-lo. (FIM)

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