Rudá Ricci
Rudá Ricci

@rudaricci

18 تغريدة Nov 05, 2022
Bom dia. Ontem recebi várias mensagens perguntando se seria melhor parar de usar a palavra bolsonarismo porque perpetuaria a imagem de Jair e filhos. Farei um fio para explicar minha opinião: isso é mais uma bobagem pós-modernista. Lá vai.
1) Jameson, num livro fantástico, já havia destacado que o pensamento pós-modernista (ele se nega a entender que existe uma lógica pós-moderna) é meramente estético. Se preocupa com a forma, mas não tem conteúdo ético.
2) Para ilustrar seu pensamento, compara a obra sobre sapatos intitulada "Diamond Dust Shoes", de Andy Warhol, com a obra de Van Gogh, "O par de sapatos". Em Van Gogh, a história de quem calça as botinas está dramaticamente presente: seu esforço e dor.
3) Já Warhol retrata algo inanimado, desumanizado. Jameson sugere que poderia ser uma vitrine de loja de calçados ou sapatos femininos retirados de judias antes de serem assassinadas numa câmara de gás nazista. Não se vê a história de quem poderia ter calçado tais sapatos.
4) O pensamento pós-modernista é assim: descritivo e vazio de experiência humana. Daí se expressar, algumas vezes, por pastiche: uma cópia grosseira de uma obra real
5) Identitários se preocupam com vestimenta e até arranjos de cabelo. Mas, não conseguem sair de suas bolhas autoafirmativas. Se perguntar sobre política externa ou projeto educacional, patinam. Olham para o próprio umbigo e não são solidários porque lhes falta noção ética.
6) Voltemos ao caso do uso da palavra "bolsonarismo". Se eliminarmos a palavra, eliminamos o fenômeno? Não. Então, estamos brincando de esconde-esconde? O bolsonarismo se forjou desde 2015. Durante os 4 anos de governo de Jair, se estruturou organicamente.
7) O bolsonarismo se apoia em 4 importantes estruturas político-organizacionais: o baixo clero parlamentar, alguns pastores, o empresariado médio e varejista e os militares que atuaram na Missão de Paz no Haiti. Além disso, estruturaram milhares de bolhas organizadas por perfis.
8) O professor da UFABC, Sérgio Amadeu, sustenta que o partido de massas do bolsonarismo são as redes sociais articuladas por perfis. Há autores que tratam como a extrema-direita mundial organiza o disparo de mensagens a partir de três perfis: o suscetível, o radical e o fanático
9) Para o perfil "suscetível", trabalham com o que se denomina de metapolítica: tratam nas bolhas de assuntos como jogos, entretenimento, lazer ou vestuário. Aquilo que atrai as pessoas daquela bolha. De repente, citam algo da política que se vincula ao assunto da bolha
10) Darei um exemplo. Imaginem uma bolha construída pelo bolsonarismo que só fala de sapatos. De repente, citam, de relance, o sapato vermelho que Renata Vasconcelos usou durante a entrevista com Lula. E deixam no ar: "viram o sapato da Renata?". Está lançada a relação com a cor
11) Para o grupo de radicais de direita, a intenção é criar uma sensação de identidade, de pertencimento a um grupo cujas convicções são justas e que são manipulados pelos depravados que conspurcam até programas infantis
12) Finalmente, as bolhas de fanáticos extremistas. Aqui, a operação é transformar as bolhas em câmaras de eco: não param de jogar informações que excitam os participantes. O tempo todo, mensagens agressivas de denúncia de tal maneira que não há tempo para refletir
13) O grau de excitação que as câmaras de eco proporcionam é tal que delas saem os "lobos solitários" para fazer "justiça com as próprias mãos". É o estímulo ao "terrorismo estocástico" ou atos tresloucados de um "herói por um dia".
14) Como afirmar que se eliminamos o termo "bolsonarista", eliminamos a sua existência? Como imaginar que se apenas citamos "extrema-direita" daremos realmente nome aos bois no caso do fascismo brasileiro? É preciso nomear corretamente: bolsonarismo fascista.
15) Ao nomear corretamente, criamos uma imagem politizada de todos que se dizem bolsonaristas, que usurpam a cor verde-amarela para destilar ódio e violência, que desejam a volta da ditadura. O bolsonarismo, afinal, existe. E, ao invés de enfrentá-lo, ficam com firulas semânticas
16) É preciso ter foco e colocar a mão na massa no combate ao fascismo. Não se combate o extremismo bolsonarista com mudança de palavras e arranjos discursivos. Se combate dando nome aos bois e enfrentando cara-a-cara. Diminuindo sua área de atuação, incriminando o que fazem.
17) Temos que olhar o Brasil de frente. Com a vitória de Lula, o bolsonarismo foi derrotado eleitoralmente. Uma batalha. Não foi derrotado politicamente. Pelo contrário. Do domingo para a segunda, foram mais de 900 bloqueios de rodovias. É preciso ter foco, sem firula. (FIM)

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